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quarta-feira, julho 09, 2008

Amo "O Haver" de Vinicius de Moraes


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
◘
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
◘
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
◘
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
◘
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
◘
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
◘
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
◘
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
◘
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
◘
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
◘
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
◘
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
◘
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
◘
A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos",
Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.

quarta-feira, outubro 11, 2006

um beijo ...

Um beijo
.
Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!
.
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.
.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?
.
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....
.
Olav Bilac

sábado, setembro 30, 2006

sem título, Ruy Bello


Um dia alguém numa grande cidade longínqua dirá que morri/
di-lo-á decerto com pena mas sem o alívio que eu próprio decerto senti/
primeiro ao solucionar de vez esse problema de respiração que a vida é/
desde a convulsão da criança que a meio do copo deixou ir leite para a traqueia/
até a instantânea atrapalhação do mergulhador a quem de súbito falta o ar comprimido/
só dispõe da reserva e lhe faltava tanto que ver no fundo sonhador do mar/
depois senti alívio porque às vezes a meio por exemplo da aragem na face/
eu pensava na morte como problema metafísico a resolver pelo menos com higiene/
se não com dignidade com acerto como mais um problema à medida do homem/
Eu estava do lado dos vivos estou do lado dos mortos/
o grande problema era saber se me doía ou se não me doía/
agora nem sei se me doeu ou não ou fui um mero espectáculo de mau gosto/
para a única pessoa encarregada de me ajudar nesse momento/
Ninguém a princípio terá sabido que eu morrera só minha/
mulher avisada de longe virá e me porá a mão sobre a testa/
os demais não não disponho do olhar para me defender/
o tempo depressa se passa são trâmites legais até me terem deixado/
debaixo do chão bem debaixo do chão sem frases lidas/
ou gravadas sem sentimento nenhum/
Uns dias depois um pequeno grupo junto a uma grande janela/
olhará a neblina da manhã de janeiro/
e terá mãos que eu tive para os meus problemas de vivos/
Onde eu estive sobre uma mesa com uma perna cruzada/
suaves começarão a suceder-se e acumular-se os dias/
como cartas revistas linguísticas ou livros adormecidos/
despertos apenas no momento fugaz da leitura/
A vida será indistinta virá até nós como árvores/
rodará em volta como um lençol até cobrir-nos os ombros/
Falareis de mim não posso impedir que faleis de mim/
mas já nada disso me pesa como o simples facto de ter de ser vosso amigo/
Estou só e só para sempre e só desde sempre/
mas antes por direito de opção. Agora não/
Deixaram-me aqui doutor em tantas e tão grandes tristezas portuguesas/
e durmo o sono das coisas convivo com minerais preparo a minha juventude definitiva/
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada/
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva.

sexta-feira, setembro 29, 2006

da minha amiga Pandora


Si muero sobrevíveme con tanta fuerza pura
que despiertes la furia del pálido y del frío,
de sur a sur levanta tus ojos indelebles,
de sol a sol que suene tu boca de guitarra.
No quiero que vacilen tu risa ni tus pasos,
no quiero que se muera mi herencia de alegría,
no llames a mi pecho, estoy ausente.
Vive en mi ausencia como en una casa.
Es una casa tan grande la ausencia
que pasarás en ella a través de los muros
y colgarás los cuadros en el aire.
Es una casa tan transparente la ausencia
que yo sin vida te veré vivir
y si sufres, mi amor, me moriré otra vez.
Pablo Neruda

segunda-feira, setembro 25, 2006

p r o c u r o

uma borboleta que anda desaparecida




Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: «La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.»

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo
.