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segunda-feira, março 10, 2008

perdão



Confesso-vos que tenho dificuldade em escrever quando a vida me corre bem, ou quando estou apaixonada ou em paz comigo mesma. Nunca percebi porque é que o sofrimento nos é tão necessário à criatividade e à veia literária. É injusto. Neste momento em que vos escrevo, vejo a dificuldade que é, em sequer me exprimir sobre as razões que me levam a justificar-me perante aqueles que teem apreciado o que, tão amiúde, escrevo.

Não sinto a revolta que martela a pena, a dôr que encaixa o braço no tampo de uma mesa, nem angústia que desenhe os meus cenários em maços de papel.

Apenas, inspiro e expiro, e falta-me inspiração. Estou parada a olhar a lua, a disfrutar o momento, a sentir as carícias do bem estar, do colo que me dá colo, e existo. Parar este momento e suspendê-lo para a eternidade, é um luxo a que não me obrigo. Para poder apreciar outros instantes assim, teria que voltar à vida que me arrelia, tropeçar nos meus enredos, cair nos meus buracos. E temo que amanhã possa ser esse dia. Por isso, deixo fluir, enrolo-me nos sonhos, afago a paz que por aqui passou, sem avisar, e adormeço nos braços da tranquilidade. Perdoem-me se me sinto feliz, e não traga de novo alguma coisa que vos faça sentir o vosso barco à deriva dos meus ventos. Perdoem-me se me aconchego no sol e sinto a vida às côres. Perdoem-me se vos falho no caminho.
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Queria levar-vos comigo, tão simplesmente...
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Leonor de Saint Maurice

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

desejo-vos um dia, de-lírios e anjos !


Pois o dia nasce aqui ao som das maritacas e ao sol das horas absurdas.

Velei seu sono. Espero que não tenha se importado, fiquei onde você me havia me indicado: sentado na janela, observando seus lábios que diziam algo suavemente, e eu via letras saírem de sua boca, dançarem no quarto, unirem-se às outras letras, que por sua vez se uniam ao seu redor e a cobriam delicadamente, com tal zelo e cuidado que se assustaram ao me ver ali sentado.

Eu poderia ter voado pela janela de volta à minha sala, mas aquela lua ariana me paralisava. Que encanto é este que me toma pelas mãos e dirige meus dedos nesse teclado? Sou nascido no Halloween, eu deveria saber... mas meu saber é teórico, não abre fendas nem brechas em almas silenciosas. Talvez alguma música me ajude a perceber esta criatura envolta em seus cobertores, sonhando que voa sobre o mar após saltar de uma escarpa. Mas a música também me absorve, desobedece a meu comando e se eleva, depois acalma e encerra, como uma peça em três actos.

Você viveu na lua! Lembrei agora... em outra era, em outro continente, vi você ser levada por uma canção, por um canto, por um conto de uma lua vaga. Fixou-se aquela imagem novamente, mas era outra forma de vôo.
As asas estão guardadas em suas mãos, e todo movimento subtil que desperta você de seu sono, do devaneio ou das câmeras de tortura da razão acabam por se revelar como se descesse um arcanjo e lhe dissesse qual será a próxima mulher, a mulher do próximo.
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MJ
......
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Que texto sublime, MJ! Permita-me bebê-lo. Encher a minha sede para depois tocá-lo em harpa.

Magnífico o pano que cobre a sua alma. Debaixo, a luz de uma aurora boreal. Suave, etérea, ofuscante, pairando sobre os meus dedos, trespasssando-me o peito, iluminando-me as irís, gravando sombras de pássaros na retina. Bebo você, rodopiando no espaço que nos separa, e procuro-o incessantemente na minha solidão. Ah ! um calor que afaga os ombros, me sussura serenidade e dança valsas nas minhas veias. Sinto o sangue a pulsar, morno e latejante, acordando-me nos meus lençóis amarrotados, suados de tanto querer.
Sonhei. Sonhei que não sonhava. Que a vida acontecia daqui para a janela, da janela para aqui. E um mundo de borboletas rompia esse vazio que nos cai dos braços. Daqui a um palmo de chão, o doce olhar que deita nos meus segredos, a canela, o rosmaninho, e lírios brancos. As horas passaram ....
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Leonor de Saint Maurice

terça-feira, julho 17, 2007

era a noite


Era a noite que calava segredos
Colava umbigos aos nossos gemidos
Deitava as cores nos teus sabores
Comungava o mesmo abrigo,
Domingo e paixão,
e o calor numa mão,
cruzavam o acto no facto.
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Era a noite que falava segredos.
Amor sem razão.
Afectos no recto.
Umbigos, momento.
Factos no acto.
Abrigos gemidos.
Vivia paixão.
E morria no beijo,
no calor de uma mão.
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Era a noite.
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Leonor de Saint Maurice
12.06.07

alice

Cuida de ti, Alice !
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Se por entre as rugas do lençol, que roça na pele o sal desse amante, encontrares a verdade do afago e o respirar incessante do pêlo e da ponta da língua,
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Se por entre as pernas do desejo, que toca a alma no doce desse amante, encontrares o hino de uma paixão ardida, a dor do partir e não ficar, de o querer assim sem o ter,
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Cuida de ti, Alice !
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São mentiras que se atiram aos girassóis das janelas,
São mentiras que separam as estradas das vielas,
São mentiras que se erguem de portas sentinelas.
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Cuida de ti, Alice ....
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Leonor de Saint Maurice
16.07.07
E o Alcaide disse:
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eu vejo o teu cabelo ali, Alice
reflexo do luar que te previsse
e meus fios de prata ali, Alice
prenderam-se em paixão ali...que eu visse
nem tempo nos separa aqui, tolice
só Deus desataria...pressentisse
se o amor me abandonasse e a ti, Alice

segunda-feira, julho 16, 2007

parto


Parto vidro na concha das tuas costas,
ateio fogos nos seios já cansados,
procuro mãos na cintura dos meus arcos
Parto cordas que te prendem aos meus cavalos,
sigo os caminhos de pele em verdes veias,
cruzo figas no ventre e faço teias
Parto ventos e os mares de sul em madrugadas,
lambo feridas novas e caladas,
carrego no peito as minhas e nossas mágoas
e encho bolsos de areias e outras águas.
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Leonor de Saint Maurice
16.07.07

segunda-feira, março 19, 2007

pai (repost)


Nas linhas das tuas rugas,
na sombra da navalha,
dormiam os teus rios
no calor dos meus frios.
Escrevi palavras de sol
afaguei-lhe os seus ventos,
sorrisos de passagem
no correr da viragem.

Vendi-lhe os meus sonhos
pintei-lhe segredos
inventei-lhe a coragem
forcei-lhe os enredos.
Nas linhas das tuas rugas
encontrei um destino,
marquei-lhe o encontro,
a carvão ao rubro.

Tracei passos lentos
de quem chega em silêncio
bati portas, janelas, momentos
de quem marca a partida
de uma vida sentida.
Nas linhas das tuas rugas
respirei as saudades
de um tempo vivido
nas tuas cidades.

Dei uma volta na pele,
e no poro mais fundo,
beijei a tristeza
que encontrei no teu mundo.
tamanha beleza ...

Leonor de Saint Maurice
Jan/2007

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

o prazer do encontro


O Prazer do Encontro

Debaixo da chuva que molha o alcatrão de uma cidade vazia, acordava a ânsia do encontro. Um olhar furtivo, na janela da rua mais feliz da cidade, esperava um sinal. O cheiro da castanha assada afogava as narinas, o bater compassado das asas dos pombos ensurdecia. Eram quase dez para as nove mas o tempo não passava. O relógio parado no pulso dos meus afectos, a manhã que se abria lenta e azul, e a memória dos outros dias ..., as mãos que procuravam calar os meus silêncios, e a terra abandonada nos sapatos. Esperava-te. Era tarde. Era tarde na vida. Eram os restos que sossobravam de vidas já moldadas por martelos e bigornas acesas, cravados no peito da alma de quem apenas viveu, entregue a destinos impostos, outros feitos, outros desfeitos. E restava a esperança de quem se bate nas frentes de muitas guerras, e a vontade de tudo refazer como se esse fosse o primeiro dia das páginas limpas. Às vezes, sentimos falta de nós. Procuramos em vão nas vielas do encontro e partimos com a mesma falta que nos trouxe ali. Sentamo-nos em frente a uma alma tão só, como se de nós se tratásse. E reconhecemos, ou não, aquela imagem de nada, que apenas nos traz a pausa dessa busca incessante do que perdemos de nós. Sorrimos com a timidez de quem não se reconhece, cruzamos sentidos, trocamos os sonhos na espera de um final que não se toca, que não destrói quem participa, mas que também não edifica. Bebemos o café da conversa, procuramos a cumplicidade no que partilhamos, e sentimo-nos tão perto de sermos aquele que procuramos. E na rua molhada e no alcatrão de duas sobras de coisas, nasce a cidade cheia, mas tão vazia como dantes.
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Leonor de Saint Maurice
Dez/2005

quarta-feira, janeiro 10, 2007

no começo


Ficámos-nos pelas 3.15 de uma noite já chuva. As noites de gatos selvagens, das flores de pele, nas virtudes sentidas das veredas da vida. Não era tempo de partir. Difícil largar as mãos que me aqueciam as luas, roubavam beijos famintos em duas bocas esquecidas no mapa de tábuas escritas e, que partilhavam já os segredos, os murmúrios e as falas pequenas.

Partíamos sim para encruzilhadas vadias, temendo o escuro mas acolhendo as madrugadas, debaixo das terras frias de uma parte qualquer do nosso universo. Calámos o amanhã em goles da vodka, riscámos calendários dos dias de nortes vários, abrigámos os silêncios em céus de estrelas. Era a nossa noite. A noite que dividia o passado do sabor dos dias, na manteiga mole das tuas febres, dos meus desvarios.

Passeámos a praia de todos os amores, agarrados à cintura das estrelas, dos caminhos simples de todos os amantes e mergulhámos nas histórias lindas de luzes explodidas à beira rio. Eram músicas que nos acompanhavam no respirar das coisas, areias que invadiam os nossos lugares, laranjas que suavam odores de inverno, em paisagens carregadas de monotonia.

Era a vida que preenchia os nossos lugares vazios, preenchia as vontades de todas as mãos do corpo e devolvia o sabor das uvas ao passo dos pés cansados de quem o bebia.

Certo era, que todas as gaivotas que dormiam sobre as ondas daquele mar que nos guardava, calado e sapiente, eram testemunha das palavras escritas em ventos do lado de lá da margem, que nos separavam daqueles que apenas remam destinos rotulados e sempre mesmos.

Lá longe, um farol que lembrava as almas esquecidas de um temporal que resistia às veleidades terrenas e apontava a luz que nos entontecia, rosto no ventre, aquecido e apaziguado na calma da alma. Eram 8 da madrugada, e o que restava de uma noite vivida ao segundo, esvanecia-se na luz que nascia.

Permaneci sempre acordada, sentindo o pulsar da tua vida no meu peito, até ao sol nascer e acordar a cidade. E as gaivotas da nossa praia encontrada anunciavam uma nova alvorada. Uma vida se levantava ao raiar de um ano que prometia sonhos e ilusões, mesmo ali, na ponta dos pés, despontava.

Leonor de Saint Maurice

sexta-feira, dezembro 29, 2006

a caixa



Guardei na caixa da memória os teus poemas de guardanapo, as tuas histórias de partitura, os teus desenhos de espelho.

Respirei o mesmo ar, dancei no mesmo bar.

Ri das mesmas asneiras, contei-te mentiras velhas.

Cavalguei os teus cavalos e caí das mesmas nuvens.

Lambi as tuas feridas e chorei da mesma maneira.

Cozi-te as cicatrizes, até que nada restásse, dos retalhos que sobram da mutilação dos outros.

Adormeci na mesma cama, cansada de tanto dar, para de manhã acordar, amarrada ao mesmo sonho.

Acompanhei-te na viagem, partimos no mesmo barco, suámos ambos em arco.

E morri sempre que pude à menor morte dos dois.

porque se morre quando se ama
porque se ganha quando se perde
porque a vida é mesmo assim.

Leonor de Saint Maurice
(2005)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

solidão, Helena, solidão


O dia tinha começado frio. Dos lençóis da cama desfeita, dessa flanela húmida, o torpor do corpo já dormido, Helena renascia para a espera que começava. Era o costume: o borbulhar do leite na cafeteira antiga, o cheiro a café de chicória que lentamente chegava à mesa da cozinha, as primeiras notícias da manhã, a torradeira velha que lhe queimava o pão, a manteiga que se colava à faca. Mais um dia ? Esperou que o velho relógio soltásse um grito, ou ouvir uma gargalhada do outro lado da porta, um gato que se atrevesse a descer o beiral da casa, o bater da portada da sala, mas nada. Tinha tido vida farta. Muitos filhos que lhe deram netos, muitas alegrias sentidas, alguns azares normais, mas sempre a casa cheia. As fotografias sucediam-se em todas as cómodas. Mas saúde não lhe faltava, graças a Deus.
Correu as cortinas do quarto, arejou a roupa, fechou os olhos para ouvir os pássaros, ao longe. Um tímido raio de sol aquecia-lhe as rosáceas da cara enquanto agradecia ao Senhor a sorte de estar viva. Lembrou-se dele. Do homem que tudo lhe dera e nada lhe exigira em troca. Saudades, António ...- dizia ela em voz baixa. Uma lágrima saltou-lhe na face, que limpou nas costas da mão. "Tenho que ser forte", pensou com os seus botões.
Hoje era dia de feira e de passar na igreja. Era um dia farto.
As comemorações de Natal esperavam pelas mãos hábeis de Helena. Mãos já cansadas de tanto trabalhar, mãos tortas de tanto tear, de tanto amassar a vida. Eram bonitos os tapetes de Helena. A cada ponto surgia-lhe uma ideia. Se ao menos tivesse podido dar corpo aos seus sonhos ...
Hoje era tarde.
Apressou-se, como se tivesse o dia cheio. Na verdade, era um dia cheio. Era dia de Natal !
Lembrou-se de um ou dois mais antigos, enquanto aconchegava as luvas aos ossos, o lenço à cabeça, as memórias ao coração. Estava só porque vivia longe. Todos os filhos tinham partido para Lisboa, e por lá tinham ficado. Se ao menos ela tivesse quem a levásse !!!Fazia anos que não via os seus. Como estaria a Joaninha, o Pedro, o Ricardo ? Uns homens, concerteza. De alguns já nem se lembrava.
Chegada à igreja, Helena arranjou as flores nas jarras, com o carinho que lhe era próprio, pediu a benção ao padre e passou na feira. Ainda tinha o suficiente para uma ceia melhorada. Bacalhau já não podia. Mas lá uma ou outra filhós de abóbora, ali da D. Rosa ...
Chegou a casa, arrumou a casa, e esperou que o telefone tocásse. Era meia-noite e o Menino Jesus nascia.
Em casa, Helena ouvia o tic-tac do relógio e o bater da portada. Tic tac tic tac tic tac ...
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Leonor de Saint Maurice

quarta-feira, dezembro 20, 2006

um amor anunciado (repost)



Hoje senti aquele vento frio da Bise, nas costas, nos tornozelos ... mandei-te chuva e o silêncio ecoou nas paredes de um quarto brígido. Que arre piú ...!!!!!

Toquei à campaínha da porta Skype, não tive as normais dores de barriga, e vi-te no espaço, dois grandes olhos azuis que se estendiam no meu céu. Tive saudades tuas, daquela voz que mexe com as minhas ar-ti-cul-ações, com as mesquitas dos meus neurónios, vazias de pouco dormir, daqueles risos que engasgam as palavras e te ateiam os pulmões, do combóio das tuas palavras, doces, divertidas, sumarentas... e procuro-te.

Procuro-te no cheiro da almofada onde dormiste, na boca que beijáste em fios de ovos, procuro a minha Ave Rara 1 e única, o meu Fred e a Felícia, como um chocolate a-ver-se passa e não passa, e espero-te.

Espero-te nas esquinas do País da Alice, vejo o Roger ao longe, alço a perna no muro, mostro a liga que nos liga, dou brilho ao meu TT antes da viagem, a viagem do dia 31, espalmo a cara na janela, oiço os pardais das minhas insónias, os cães dos vizinhos e escuto. Silêncio. O telefone toca Discos Pedidos. É ele ! O meu homem !

Estou aos pulos. Pulos cá dentro. Daqueles que remexem o pâncreas, entornam a bílis que me comem as gorduras, que dão sentido a um baço, que enrolam as tripas, e revivo ... mexo a perna direita, a esquerda, os 4 joelhos, as narinas sobem ...Respiro o ar do meu oxigénio, da minha existência maldita, e sorrio. Já está. Renasço na minha tela, cubro-me de tintas, cheiro a terebentina e à canela das rosas.
E percebo-te cansado e feliz, na casa dos teus sonhos, a percorrer os sentidos no mar que nos separa, um verdadeiro Ó si ano !!!! Ano 2005/2006 ...

Beijus nos sitius
Eu, com um nome a descobrir

Maria Leonor de Saint Maurice (Dez/2005)

terça-feira, novembro 28, 2006

parabéns, Pandora amiga


Parabéns, Pandora !
Para ti.


Se era o dia das rosas e dos lilazes
era o dia da pauta que acrescenta
um Fá de Faz de um Dó de ter
num renascer de sinfonias várias.
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Se era o dia das violetas e dos jasmins,
era o partilhar da mesa farta
o trilhar do garfo em bolos de nozes,
copos cheios, muitas vozes.
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Se era o dia das petúnias e madressilvas
eram esperanças resnascidas nas esquinas,
das encruzilhadas que dormem ao sol
mil sonhos, alguns amores, expectativas.
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Era o abraço na chapa quente
os amigos, Pandora, que nos abraçam
ao virar de mais uma página branca,
em tempos que, de repente,
nos mostram portas, caminhos
e os rumos de toda a gente.
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Leonor de Saint Maurice

segunda-feira, novembro 27, 2006

os meus livros


Os livros que escrevo
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são serradura de mim, esfregão de aço, lágrimas empalhadas, résteas de côdea. Vivem dos seus devaneios materiais, das suas insígnias, das dores do alheio, da glória da serpente....
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Os livros que escrevo são páginas de fel, à espera da abelha. Não pagam alugueres, nem frascos de perfume.
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Os livros que escrevo são papéis de carnavais, pó de lixo, carne seca, amores perfeitos em campos de joio.
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Os livros que escrevo morrem comigo, não se espalham ao vento da nortada, nem nas cristas das ondas.
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Os livros que escrevo limpam janelas, assentam telefones, esvaziam caixas de chocolates, enfeitam-se dos meus dedos.
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Os livros que escrevo forram paredes de prisões, guardam humidades e lembram as angústias de um mundo injusto.
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Os livros que escrevo são as minhas medalhas, as minhas angústias, as minhas incertezas.
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Os livros que escrevo apenas servem para dizer que sou a 7525734 e que nasci em Moçambique, num ventre bem-aventurado.
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São as minhas lâmpadas que fundem mas guiam quando podem, os trilhos já pisados de uma alma em desencanto.
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Esses são os livros que escrevo.
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Leonor de Saint Maurice

sábado, novembro 25, 2006

ecos



Ecos de ti, sob o canto dos grilos,
em campos de orvalho e de erva-doce
nas esteiras do milho onde dormimos
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deixáste num rasto coisas não-ditas
que o tempo fará remedeio
entre a vida e um eco, de permeio
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ecos de ti, sob as cores de Maio,
em estradas percorridas de centeio
nas bermas, e apenas, no meio
o calor de noites já vividas.
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Lua nova e amores desabridos
que me aquecem os sentidos
em campos de orvalho e de milho
sob um cheiro d'erva-doce.
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Leonor de Saint Maurice

sexta-feira, novembro 24, 2006

destino ou gare



A raiva e o sal
- em dia de temporal -
que lhe esvaziava o prato,
sob a luz do coto
da vela que morria
ao suor de um pranto,
de fé se reacendia,
perdida de medo
frágil, pequena,
como os lamentos de quem pare,
sem saber destino ou gare
.
a raiva das coisas,
vazias no vidro que esconde
a cor do vinho no rosto,
- num copo que de cheio tinha
as memórias que guardava-,
de formas tomava vida
aventurada, desprevenida,
nos ombros de quem parte,
sem saber destino ou gare
.
eram dois amantes perdidos,
os olhos guardados,
de tanto se quererem,
num cais de cidade.
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Leonor de Saint Maurice

quinta-feira, novembro 23, 2006

respostas sem resposta


Adoro sentir o teu sorriso para lá do tempo incerto
Adoro sentir o calor da alma que me adormece
Adoro acordar nas tuas madrugadas
Adoro prender-te na alma e voar, voar
Adoro o perfume das nossas manhãs frias
Adoro a nossa casa e o nosso cão
Adoro o café, as migalhas na cama
Adoro um "amo-te" de peito aberto
Adoro ficar em ti
Porque te tenho na pele
Porque te tenho assim.
Leonor de Saint Maurice

quarta-feira, novembro 01, 2006

quero

Foto: Misha Gordin
.
Quero saber tudo de ti
mesmo se ficar do outro lado do espelho.
Quero saber o que emanas da pele,
mesmo a uma distância curta.
Quero ler-te os olhos
mesmo que não se toquem.
Quero partilhar momentos,
um raio de sol a brincar numa taça de chá,
Quero olhar os mesmos lugares,
tocar veludo nas orquideas.
Quero olhar o mar em silêncio
e, se não me tocares a carne,
já me tocaste a alma.


E poderás sussurrar as tuas tormentas,
aproveitar um vento
que corre à altura dos ombros,
assim devagarinho ...


Maria Leonor de Saint Maurice

uma doce ilusão, sem hora, sem hora


sem hora! sem hora!

Meu amor,


Mas se hoje fôr...

queria dizer-te que se fôr o mar que te devolve à vida,
que as praias dos nossos sonhos se espraiem
num futuro que se quer próximo,
que a rebentação dos nossos dias
conheça marés calmas e tranquilas,
que o navegar das emoções seja a força do nosso barco,
que o timoneiro do nosso amor não morra mais.

E deixemos que o desejo nos embriague a cada esquina,
a cada voltar de vida,
a cada explosão de loucura que nos devolva o sentir das coisas,
a cada desmaiar de falsas esperanças,
para cearmos ao pé da felicidade que procuramos,
essa busca incessante mas possível,
sem medos e sem receios de que o frio volte ...
E que adormeçamos
no colo que acalenta o perder do passo e da mão fechada,
juntos,
porque agora é hora exacta,
é vida que renasce,
é oportunidade na frente.
Sem hora, sem hora ...


(Maria Leonor de Saint Maurice)

domingo, outubro 01, 2006

à minha mãe


À minha mãe,
(In memorium)

Penso na velhice que te avassalou de repente, da dor que não dizias sentir, amparada à vida pelos grilhões das tuas mágoas. Penso no que navegaste sobre conchas de ar e de mar, dos nomes que escreveste nas areias das tuas praias, nos búzios que foste deitando, espreitando o futuro com os teus olhos de criança, batendo-te com bravura na tela dos teus desenhos.

Penso no amor com que embalavas o barco. Um barco de seis marinheiros. Nós e só nós. E era assim, como capitão de jangada, que guardavas os teus cinco raios de sol, no rumo dos teus caminhos.

Vi-te, sereia bela, olhar a vida de frente, arqueando a cauda ao nosso rasto, defendendo a prole das tempestades. Vi-te sorrir quando o infortúnio nos visitara por tantas vezes, inventando histórias de outras terras, de outros sonhos, de mais cores.

Vi brilhar os teus olhos de ébano no calor das manhãs de África, e senti-te o cheiro da terra. Vi a felicidade sentar-se na tua pele, até mesmo por instantes.

Vi-te bailar e dançar, entre as crianças que ensinavas, cantando as vitórias de um passado e sonhando histórias de princesas.

Contei, e perdi a conta, as pérolas de mar que te saltavam da face ao esbarrar nas falésias de ilusão. E que foram tantas …

Eras uma criança que não tinha crescido, cabeça cheia de sóis e de ventos …

Venho dizer-te, mãe, que aquilo que me deste foi muito mais que este oceano imenso.

E, que existem tantos mares, tantos oceanos, mas não há sereias como tu.
Deixa-me dar-te o alento que precisas, deixa-me aquecer-te as mãos que se deitam no teu colo, esperando, resignadas.
Leonor de Saint Maurice

sábado, setembro 30, 2006

o desamor


Sob o sufoco das suas mãos, amarrada à vida apenas por uma fé qualquer, bradou aos céus, sem voz que lhe restasse, e pediu socorro à vida. Quedou apenas o olhar, talvez pela última vez, no tecto daquele quarto que tantas vezes lhes tinha guardado os segredos, os prazeres, e os sonhos. Sentiu o seu olhar duro, empedernido e frio, orvalhado pela raiva de não a ter.

E num esforço maior que a própria vida, deitou-se por terra, agarrada ao chão onde ele nunca viria.

Era no chão que ele a queria, era então no chão que ela ficava, molhada de dor, seca de amor.

Gritou, chorou, gritou, sem querer levantar-se, guiada por um medo cego, naquela mágoa que lhe rebentava o peito.

Apercebeu-se, então, que embora já não amasse a vida, queria decididamente viver. Nem que para isso significasse sangrar as feridas para subir no ar numa bola de sabão, irisada de azul, leve, diáfana, etérea, serena. Procurava na paz, o refúgio das almas sábias.

Resgatou a solidão para renascer dessa luta desleal que cansa as costas, e que nos envelhece por dentro ao compasso de um tango, ao ritmo do tempo.
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Leonor de Saint Maurice