quarta-feira, agosto 20, 2008

Julien Gracq e a crítica literária

«O que eu desejo de um crítico literário - e ele só o faz tão raramente - é que ele me diga, a propósito de um livro, melhor do que eu mesmo poderia fazê-lo, de onde vem o prazer que a leitura me proporciona e que não se presta a qualquer substituição. Você apenas me fala de aquilo que não lhe é exclusivo, e a mim apenas me interessa o que houver de exclusivo. Um livro que me seduza é como uma mulher que me faz cair no seu charme: para o diabo os seus antepassados, a sua terra natal, o seu ambiente, as suas relações, a sua educação, e os seus amigos de infância! O que eu espero apenas do seu ponto de vista crítico é a inflexão de justa voz que me fará sentir que você está apaixonado, e apaixonado da mesma maneira que eu: eu só preciso da confirmação e do orgulho que dá ao apaixonado, o amor paralelo e lúcido de um terço bem dito. E, quanto ao contributo do livro para a literatura, e ao enriquecimento de que é suposto trazer-me, saiba que me caso mesmo sem dote. Que palhaçada, no fundo, e que impostura, é a profissão do crítico: um perito em objectos amados! Porque, apesar de tudo, se a literatura não é para o leitor um reportório de mulheres fatais e de criaturas de perdição, não vale a pena incomodar-se»
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«Ce que je souhaite d’un critique littéraire et il ne me le donne qu’assez rarement c’est qu’il me dise à propos d’un livre, mieux que je ne pourrais le faire moi-même, d’où vient que la lecture m’en dispense un plaisir qui ne se prête à aucune substitution. Vous ne me parlez que de ce qui ne lui est pas exclusif, et ce qu’il a d’exclusif est tout ce qui compte pour moi. Un livre qui m’a séduit est comme une femme qui me fait tomber sous le charme : au diable ses ancêtres, son lieu de naissance, son milieu, ses relations, son éducation, ses amies d’enfance ! Ce que j’attends seulement de votre entretien critique, c’est l’inflexion de voix juste qui me fera sentir que vous êtes amoureux, et amoureux de la même manière que moi : je n’ai besoin que de la confirmation et de l’orgueil que procure à l’amoureux l’amour parallèle et lucide d’un tiers bien disant. Et quant à " l'apport " du livre à la littérature, à l'enrichissement qu’ il est censé m’apporter, sachez que j’épouse même sans dot.Quelle bouffonnerie, au fond, et quelle imposture, que le métier de critique : un expert en objets aimés ! Car après tout, si la littérature n’est pas pour le lecteur un répertoire de femmes fatales, et de créatures de perdition, elle ne vaut pas qu’on s’en occupe.»

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