segunda-feira, Outubro 30, 2006

dia dos mortos no México


O Carnaval dos Finados

No México, o dia dos mortos, dia 2 de Novembro, não é de luto. Os entes queridos são lembrados, em casa e nos cemitérios, com muita festa e música.
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Como certamente a maioria dos brasileiros, nunca tive uma relação de muita intimidade com a morte. Assim, sempre passei ao largo da entrada de qualquer cemitério. Excepção aos sóbrios Père-Lachaise e Montparnasse, em Paris, para visitar os túmulos de ilustres figuras, como Baudelaire, Nijinski, Molière e Jim Morrison. Mas em terras mexicanas, tudo é diferente. Lá aprendemos a ver a morte com outros olhos e até a nos divertir com ela.
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A Noite dos Mortos é uma das mais tradicionais e alegres festas do México. Envolve todo o país, e não há mexicano que não dedique uma oferenda ou um trago de tequila a uma alma querida nessa primeira noite de Novembro. Querendo entender os mistérios que movimentam multidões para esse carnaval fúnebre, chego a Tzintzuntzan, a grande capital dos índios purépchas no século 15, na região de Michoacán, em plena noite de 31 de outubro. Impressionado, imagino que inverteram o céu e a Terra. Tantas são as velas acesas, que parece ser muito mais do que todas as estrelas do universo. Cruzo o portal do antigo cemitério, decorado com flores amarelas e papéis de todas as cores, e me sinto como se estivesse sonhando. Por entre os túmulos, iluminados por essa constelação de velas, passam por mim correndo crianças vestidas de caveiras, enquanto velhas senhoras riem transbordando felicidade. Grupos de homens com sombreros brindam com estardalhaço suas garrafas de tequila. Ao lado, um jovem de bigodes fartos recita poesia em voz alta sem se importar com uma família concentrada em orações junto a uma grande imagem da Virgem de Guadalupe. Caminhar entre os túmulos é uma aventura.
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Garnachas, gorditas infladas, tlacoyos
sabores que reanimam qualquer alma viva
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Durante toda a madrugada, as ruas de Tzintzuntzan são tomadas por bailes populares e barracas improvisadas, onde se pode comer e beber com a fartura típica da boa mesa mexicana. Enchilladas, garnachas, tlacoyos, sopes, huaraches, gorditas infladas ou picositos chilaquiles, nomes esquisitos para nós, mas que têm o poder de reanimar qualquer alma viva que por descuido esteja a ponto de passar para o mundo de lá. Tzintzuntzan está às margens do Lago Pátzcuaro, onde nessa última noite de outubro os purépchas realizam uma caça ritual a patos selvagens, que serão oferecidos aos defuntos no dia seguinte. Kurisi-Atakua, como chamam essa caçada desde tempos imemoriais, hoje enfrenta a escassez de patos, quase extintos, obrigando que muitos a substituam pela pesca, também tradicional desse povo. Os pequenos barcos de madeira armados com redes suspensas em grandes arcos circulares, que colocam nas laterais, mais parecem uma revoada de mariposas sobre a superfície do lago.
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Pescadores-mariposas
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De manhã, com a paisagem envolta por espessa e misteriosa bruma, sigo para a ilha de Pacanda, a maior do lago, passando por um grupo de pescadores-mariposas e seus barcos iluminados por tochas flamejantes. No cemitério da ilha - assim como em todos os outros do país no primeiro dia de novembro - acontece a Velación de Angelitos, onde são homenageadas as crianças mortas, os Santos Inocentes. A luz clara e as cores da manhã criam um ambiente calmo, ao contrário da noite anterior, fazendo o lugar parecer um jardim de sonhos. Flores, doces e brinquedos são postos com carinho e cuidado sobre cada túmulo para receber os pequenos visitantes. O silêncio só é quebrado pelo vento e por um fotógrafo americano, que, encostado numa antiga cruz de pedra, discute por celular o preço das fotos com seu agente em Nova York. Gentis, os purépchas não dizem nada, mas o fuzilam com olhares de reprovação.
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O culto indígena aos mortos se misturou com a celebração católica de finados
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Numa casa próxima, a fumaça e o forte cheiro do incenso copal denunciam a presença de um altar. No centro da sala, Inácia Reynoso me recebe, enquanto faz os últimos retoques nos arranjos de flores e doces que pôs numa grande mesa. Conta que a sobrinha, Verônica, morreu recentemente com apenas 15 anos. Não há sinal de tristeza na casa. Crianças entram e saem pela porta da frente, olham para o retrato da falecida e riem como se ela estivesse presente. Ao sair, percebo que em cada casa há altares igualmente decorados.
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Pátzcuaro também é o nome da cidade que simboliza essa região. Foi o principal centro evangelizador no início da colonização espanhola, embora já fosse uma cidade importante para os purépchas, sob as ordens do primeiro bispo de Michoacán, Vasco de Quiroga. Em suas ruas de pedras, solares e igrejas foi se formando ao longo dos séculos uma cultura mestiça, patrocinada por franciscanos e jesuítas, em que o culto indígena aos mortos foi sendo associado à celebração católica de Finados, que havia sido criada do outro lado do oceano, na França, pelo Abade de Cluny, San Odilon, em 1049.Pátzcuaro significa, em purépcha, "terra de sombras", e era associada à morte, embora também fosse conhecida como a Porta do Céu, por onde passavam os deuses. Assim, o hábito dos espanhóis de decorar os cemitérios e distribuir pães no Dia de Finados acabou misturando-se aos ritos indígenas locais e mais tarde adaptou-se à alegria contagiante do povo mexicano.
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Reino da morte e das sombras
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Os purépchas, que no passado eram chamados de michoaques (daí o nome do Estado Michoacán), sempre acreditaram que o mundo se baseia em dualidades opostas, num jogo de complementos que dão origem à própria existência. O universo estaria dividido em três planos: o céu, o mundo dos homens e o inframundo, reino da morte e das sombras. Assim, para eles, a morte não seria o fim natural da vida, mas uma fase de um ciclo infinito. Então, por que lamentar? Com a colonização espanhola, a concepção católica de céu e inferno acabou se confundindo com a idéia dos purépchas de uma vida verdadeira após a morte. Mas a Noite dos Mortos também representa uma celebração ao mito da princesa Mintzita, que morreu de saudades de seu amante, o príncipe Itzihuapa. O príncipe teria sido assassinado pelos espanhóis ao tentar guardar o tesouro de seu pai, Taré, rei da ilha Janitzio, no fundo do Lago Pátzcuaro. Ainda hoje, os moradores juram ver a tristonha princesa vagar pela escuridão da lagoa na noite de Finados, à procura de seu príncipe herói.
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Sobram ironias para os colonizadores, retratados como velhos reumáticos
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Nas ruas de Pátzcuaro, inúmeros grupos de dançarinos exibem-se sem parar nesses três dias. Os mais comuns são uns simpáticos mascarados conhecidos como viejitos. Fazem uma sátira dos colonizadores espanhóis que se queixavam de dores nas costas e nas juntas. Como o reumatismo e a artrose eram desconhecidos dos saudáveis nativos daquela época, acabaram virando tema de uma coreografia frenética, engraçada e ferinamente sarcástica, em queo vigor dos dançarinos contrasta com a fragilidade dos personagens.
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Labirinto de múmias
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Outras cidades em torno do lago, todas com a população com predominância indígena, festejam igual e intensamente esses dias. Erongarícuaro, refúgio do escritor surrealista André Breton, Jarácuaro, Janitzio, San Francisco Uricho, Quiroga e a mais bela, Santa Fé de La Laguna, ajudaram a espalhar esse sentimento de alegria e comunhão com a morte por todo o território mexicano. Na distante Guanajuato, por exemplo, na Noite dos Mortos a população percorre um labirinto de galerias repletas de múmias desenterradas do cemitério ao lado para homenageá-las. Em Xochimilco, vizinha à Cidade do México, os canais construídos pelos astecas ficam engarrafados de trajineras, pequenas gôndolas coloridas, com músicos e famílias a cantar canções de amor e morte.De volta a Tzintzuntzan, leio escrito numa velha parede as palavras do grande escritor mexicano Octavio Paz: "A palavra morte não é pronunciada em Nova York, em Paris ou Londres porque queima os lábios. O mexicano, ao contrário, brinca com ela. A acaricia. Dorme com ela. A celebra. É um dos seus brinquedos favoritos e seu mais constante amor". Olhando ao redor, não tenho a menor dúvida.

*Matéria publicada na edição #151 da revista Os Caminhos da Terra.

5 comentários:

Anónimo disse...

Olá, queria saber se não dá para copiar esse texto!

fresquinha disse...

Como já terá experimentado, não dá. Mas se me mandar o seu e-mail, poderei enviar. Sendo anónimo, torna-se difícil.

marina disse...

Gostaria de saber se voce poderia estar me enviado esses textos e se tivesse alguma imagem também. Estou fazendo um trabalho sobre o assunto.
Obrigada !

Fresquinha disse...

Repito a minha resposta anterior. Se me mandar seu e-mail, claro que envio estes textos.

O meu e-mail é nonosm@gmail.com

Andarilho do escuro disse...

ola,gostei do seu blog,eu tenho um que fala de coisas sobrenaturais e etc,se voce puder da uma olhada aqui esta o link www.caminhodomedo.blogspot.com